O caderno de recortes do aluno André de Leones

"O silêncio é a areia dos ruídos" - Francis Ponge 

From "The Postman Always Rings Twice" ('81)

Antonio Prata: "Ditadura Gay"

“Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?” Desde que a enquete apareceu no site do senado, faz umas semanas, evangélicos de todo o país iniciaram uma cruzada via internet, pelo direito de ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo.

Uma senhora chamada Rosemeire, por exemplo, expondo num blog seu temor de que a lei seja aprovada, disse que vivíamos “O início da Ditadura Gay no mundo!”. Pelo que entendi, Rosemeire acredita que está em curso uma batalha global, travada entre héteros e homossexuais, pela hegemonia na Terra. Hoje, os héteros estão vencendo, mas é só porque têm amparo legal para chamar os gays de viadinhos, as lésbicas de sapatonas e rir das piadas do Juca Chaves. No momento em que passarem a punir quem ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo, elas perceberão que chegou a hora, sairão todas correndo da The Week e tomarão o poder.

Imagine só, Rosemeire? Criancinhas terão de cantar Village People, na escola, enquanto assistem ao hasteamento da bandeira do arco-íris. Aos domingos, em vez de futebol, as TVs transmitirão Holiday on Ice e, com dezoito anos, os jovens serão obrigados a alistar-se no exército, fazer flexões de braço, dormir e tomar banho, uns na frente dos outros. Que horror!

Se você acha que Rosemeire exagerou, é porque não leu o blog de Rozângela Justino, cristã, psicóloga e indignada: “Se este Projeto (...) for aprovado, estaremos institucionalizando em nosso país o sistema de castas e todos aqueles que não forem homossexuais serão considerados cidadãos de segunda classe.”

Uau, Rozângela! O mundo, então, seria governado pela casta das Drag Queens? Um advogado gay, de terno e cabelo curto, seria de uma casta intermediária? E lutadores do Ultimate Fighting, viveriam de esmolas? Bem, talvez não...

Quanta imaginação têm as duas mulheres. Se seus piores pesadelos fossem filmados, seria preciso unir o talento de um Fellini com o de um Clóvis Bornay; juntar, no mesmo caldeirão, George Orwell e Andy Warhol; vislumbrar as ruas de Nova Déli sendo percorridas pela banda de Ipanema.

Se bem que... Sei lá. Pensando melhor, talvez o temor de Rosemeire e da Dra. Justino tenha algum fundamento. Veja o caso dos negros: há poucas décadas, todo mundo contava piada racista e eles eram cidadãos de segunda classe. Veio esse papo de igualdade, o que aconteceu? Um mulato chegou a presidente dos Estados Unidos!

A batalha racial já está perdida, mas a sexual ainda pode ser ganha! Basta ir ao http://www.senado.gov.br/agencia/default.aspx?mob=0, clicar em NÃO e mostrar a todos que ainda tem gente disposta a lutar por um mundo injusto, desigual e preconceituoso!

 

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Régis Bonvincino: "Caetano Veloso ataca de novo"

É bastante provável que Caetano Veloso vá votar em Marina Silva porque ela é (embora disfarce) criacionista, ou seja, não acredita na evolução das espécies, em Charles Darwin. O CD Zii e Zie (2009) não fez sucesso. O filme Coração vagabundo (2009)idem. Veloso não produz nada digno de nota há – seguramente – duas décadas. Seu momento pós-tropicalista é desigual. Seu cancioneiro lírico-amoroso, basicamente heterossexual, é papai-mamãe, convencional: idealiza o amor e o trata com “raiva”, cinismo e/ou ironia, para posar de amante rejeitado pela musa ou “conquistador”, lirismo vazado, muitas vezes, em jargão da moda, que, em seu caso, substitui a própria ideia de letra, de lyrics. Enumero algumas canções nessa trilha: “Eu te amo”, “Vera gata”, “Dom de iludir”, “Ela e eu” e até “Queixa”, que, para narrar uma situação de amor aberto, usa “vocábulos” kitsch, metáforas horrendas: “Princesa, surpresa, você me arrasou/ Serpente, nem sente que me envenenou/ Senhora, e agora me diga aonde eu vou/ Senhora, serpente, princesa”. Sem falar, no caso, na assonância, musicalidade, de ouvido mouco. Veloso é abstratizante em suas letras – vago, para parecer profundo. Não há concretude de linguagem, exceto no curto período tropicalista. E, depois, aqui e acolá. Suas canções são musicalmente pobres, quadradas, sem a força primitiva das de um Jorge Ben Jor. Veloso é um anti-Sam Cooke, que fazia do simples e direto algo de extraordinário.

Como não faz mais sucesso de estima e nunca fez de massa, Veloso se vale da velha tática. Atacar alguém, para levar público ao show. Desta vez, foi Luiz Inácio Lula da Silva, chamado de “analfabeto” e “grosseiro e cafona” ao falar. Quis surfar em popularidade alheia. De fato, um dos maiores erros de Luiz Inácio Lula da Silva foi ter nomeado Gilberto Gil para ser seu ministro da Cultura e, depois, de ter “empossado” Juca Ferreira, o discípulo do autor de “Aquele abraço”. Ao ser indagado sobre a Lei Rouanet, do qual tem se beneficiado há década, Veloso se calou, saindo-se com essa: “Não sou muito bom nesse negócio”. Imagine se fosse. Dois exemplos recentes: a turnê do medíocre Zii e Zie foi autorizada a captar recursos milionários por Ferreira, contra parecer da comissão do MinC que examina os casos. Coração vagabundo foi igualmente em parte financiado por essa Lei.

Ou seja, ele foge do debate de assuntos culturais. Esconde sua cabeça, como sempre fez. A Lei Rouanet transformou a cultura em objeto de comunicação social de corporações: na verdade, acabou com a cultura, com o conceito de o Estado amparar a cultura e não estimulou a criação de um mercado, que é pujante no liberalismo anglo-americano, que Veloso, na mesma entrevista, declara-se admirador. A Lei Rouanet precisa ser revogada. Claude Lévi-Strauss define cultura: “Em sua acepção geral, cultura designa o enriquecimento esclarecido do juízo e da capacidade de distinção”. Veloso, como aponta Francisco Alambert, em nome da cultura, promoveu, desde os tempos do tropicalismo, a indistinção geral. O que no tropicalismo era, entretanto, abertura, tornou-se depois mero mecanismo de mercado, farsa.

Veloso incorporou do conceito de Lévi-Strauss o termo “enriquecimento esclarecido”. Por isso talvez admire políticos quatrocentões como o Aécio Neves, Ciro Gomes ou Mangabeira Unger – que eu nunca soube distinguir do Professor Pardal. Em virtude de seu “enriquecimento esclarecido” talvez critique a “vulgaridade” de Luiz Inácio Lula da Silva e a paulistanidade deste e de José Serra, o “italianinho” – ambos produtos da “decadente” USP. Diz, como sempre, barbaridades: “O Serra é o tipo do cara que, se tivesse ganho no lugar do Lula, em 2002, teria trazido mais problemas à economia brasileira. Ele teria feito um governo mais à esquerda e a economia talvez tivesse problemas que não está tendo porque o Lula fez a economia à direita”. E conclui do alto de sua “cátedra”: “O Lula foi mais realista do que o rei. Foi bom, a economia deslanchou”. O governo Lula tem problemas, falhas, mas Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente mais forte que o Brasil teve depois de Getulio Vargas. É um mito, aqui e alhures, com uma trajetória política. O “literato” Sarney fala bem e, como Veloso sabe, proibiu o filme Je vous salue Marie, de Jean-Luc Godard, quando era “presidente”.

Não votarei em Marina Silva. Ela integrou o governo Lula por seis anos e, nesse período, não executou um projeto sequer de peso. Limitou-se a “bloquear” a ação alheia, segundo divulga. Suas opiniões são as de um cidadão comum, embora tenha sido ministra de Estado. Não se fez propositiva, não se impôs. Ela não é a soma de Lula da Silva e Barack Obama, como a “define” Veloso napoleonicamente. A senadora é evangélica. Missionária da Assembleia de Deus. Líder informal dessa bancada temática no Congresso. Uma Sarah Palin, “à esquerda”. No Partido Verde milita um Sarney. A bióloga Cláudia Magalhães denunciou (Época, 21 de maio de 2008) que, quando ministra, promovia rezas evangélicas em seu gabinete e discriminava outras religiões. Relata que ela ganhou uma carranca no Festival Ecocultural do São Francisco, em Brasília, e se recusou a receber o presente, deixando a festa. Magalhães conclui: “Foi quando eu comecei a ver que a fé dela esbarra em sua atuação política”. Magalhães informa que a ministra tinha “um pastor particular”, chamado Roberto Vieira, que recebia seus honorários pela UNESCO. A República foi proclamada há cem anos: religião não pode se confundir com Estado. A fé não deve “bloquear” a ciência, embora, com diz Gil, “ela não costume faiá”. O tema do resgate do meio ambiente – central para humanidade – não qualifica por si só Marina Silva a ser presidente do Brasil. Seria interessante que Veloso tivesse estudado “direito”, nos dois sentidos. Veloso é um personagem old fashion, que ainda se sente como “antena da raça”, que se atribui o papel de porta-voz da sociedade – parece viver congelado no espírito messiânico dos anos 1960, do qual foi, relativamente, beneficiário à revelia, como o tempo revelou. Enfim, como todos sabemos, Veloso – haja vista sua amizade com Juca Ferreira e com Gil – é chegado numa “igreja”. Cucurucucu, Palomaaaaa!

James Joyce reading from "Finnegans Wake"

(Thanks, Erwin)

Manabu Mabe

Lawrence Wright: "Captives"

A young man looks for his mother’s grave in a cemetery in Beit Lehia that was destroyed by tanks in January. Israel’s three-week-long attack has given rise to charges of war crimes on both sides. Photograph by Christian Als.

Letter from Gaza
Captives
What really happened during the Israeli attacks?
by Lawrence Wright

In southwest Israel, at the border of Egypt and the Gaza Strip, there is a small crossing station not far from a kibbutz named Kerem Shalom. A guard tower looms over the flat, scrubby buffer zone. Gaza never extends more than seven miles wide, and the guards in the tower can see the Mediterranean Sea, to the north. The main street in Gaza, Salah El-Deen Road, runs along the entire twenty-five-mile span of the territory, and on a clear night the guards can watch a car make the slow journey from the ruins of the Yasir Arafat International Airport, near the Egyptian border, toward the lights of Gaza City, on the Strip’s northeastern side. Observation balloons hover just outside Gaza, and pilotless drones freely cross its airspace. Israeli patrols tightly enforce a three-mile limit in the Mediterranean and fire on boats that approach the line. Between the sea and the security fence that surrounds the hundred and forty square miles of Gaza live a million and a half Palestinians.

[Leia o restante AQUI.]

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Pécora on Fonseca

Artifícios de estilo não conseguem salvar trama de Fonseca

Primeiro livro do autor depois de deixar a Companhia das Letras usa latim, poesia e muitas trívias em história policial

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

"O Seminarista", novo livro de Rubem Fonseca, agora em nova editora (trocou a Companhia das Letras pela Agir, do grupo Ediouro), não traz infelizmente nenhum novo estímulo para quem tem saudade de sua prosa dos anos 60 e 70. Trata-se da história de um assassino de aluguel, que atende pelo codinome de Especialista, e é considerado o melhor profissional do gênero no Rio de Janeiro.
A sua assinatura é um tiro na cabeça, dado por uma pistola Glock, usada com silenciador. Ama a pistola e o serviço bem feito, sem nenhum sadismo particular. A certa altura, acha que tem dinheiro suficiente para viver e, sem maiores explicações, decide se aposentar.
Aí iniciam os seus problemas, pois, ao mesmo tempo em que começa a ser perseguid o por antigos companheiros de profissão, aparentemente contratados para liquidá-lo, se apaixona pela filha do homem que costumava empresariar seus serviços, o qual também custa a aceitar a sua aposentadoria precoce.
Contudo, Fonseca, experiente, não confia apenas à intriga policial batida e ao costumeiro estilo seco da narrativa o que deveria ser o núcleo do interesse do romance. Saca, então, com o mesmo profissionalismo do Especialista, dois artifícios do estilo que deveriam dar graça à história:
1) o pistoleiro ama literatura, em particular, poesia; leitor de Camões, experto no Weltinnenraum rilkiano, contemplador do pôr do sol de Keats, ele não perde uma chance de ler para a amada assustada belos poemas do cânone ocidental;
2) o assassino foi seminarista e sabe latim; não perde uma ocasião de despedir frases sentenciosas do Lácio como comentário ao que se passa no submundo da violência policial ou como réplica fulminante na convers a ção. Ou seja, antes de liquidar com a Glock, o Especialista humilha com Sêneca, Cícero e são João Crisóstomo.
Esses dois artifícios poderiam funcionar, ao menos como piada, se tanto o latim como a poesia não tivessem o mesmo estatuto da trívia que o narrador encaixa no texto a pretexto de tudo: do preparo do bacalhau Gomes de Sá à biografia de Lima Barreto; da qualidade dos vinhos brancos à operação Valquíria; da batalha de Alcácer-Quibir à implantação de uma prótese dentária de titânio ou ao nome científico da ave conhecida como perna-de-pau. Poesia ou latim, ambos parecem tão mal encaixados nas circunstâncias da narração, tão forçados em suas tiradas espirituosas, que a sofisticação do assassino afunda junto com a imitação farsesca de filmes noir americanos.
Há um terceiro artifício, que é o verdadeiro pulo do gato de Fonseca, no caso de não funcionarem os outros dois: em uma simples página, ao início do segundo terço do livro, uma personagem assassinada pelo Especialista reaparece viva na trama. A ocorrência, bem considerada, dá a dois terços do relato um estatuto alucinatório, como efeito da paranoia.
Reforça a alucinação o fato de que os bandidos usuais vão sendo substituídos pelas personagens da memória do seminarista, até que o próprio reapareça e permita finalmente ao Especialista usufruir da difícil aposentadoria. Essa é a página interessante de todo o romance. Melhor pensada, daria outro livro. Ocorre que, afora ela, restam as outras 180 nas quais o latinório de almanaque e a poesia gauche são a Glock a disparar, sem silenciador e sem perdão, contra toda vontade de leitura.

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Woody Allen fala à ÉPOCA (excerto)

via revistaepoca.globo.com

ÉPOCA – Desde que o roteiro (de Wathever Works) foi escrito, o mundo e o senhor mudaram. Como sua filosofia de vida foi alterada nestes anos todos?

Woody Allen – Minhas ideias permaneceram. A vida é dura, brutal, curta. Não existe esperança para nós (risos). Quem assiste ao filme já vai logo pensando que o personagem de Larry David é pessimista e cínico, mas eu não sou assim. Na verdade, sou muito realista. Acho que o ser humano tem de aceitar que a vida é sem sentido e vazia, e que estamos vivendo num tipo de universo também sem sentido. Temos de tentar atravessar nossa vida sem pretender que exista uma espécie de Deus onipotente olhando por nós, ou que o amor conquiste todos e faça tudo entrar nos eixos, ou que os artistas serão salvos. As pessoas são iludidas demais, sempre imaginando esse carnê da esperança que, se pago mensalmente, vai fazer as coisas acabarem dando certo no final. Quando, na verdade, nada dá certo no final.

 

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Ivan Lessa: "Sexo: indescritível"

Exatamente. O sexo é indescritível. Ou seja, não dá para se escrever sobre ele. Dá para se escrever sobre sexo no sentido de que, digamos assim, a moça era de meia altura, loura e curvilínea e o rapaz alto, moreno e de olhos claros. Daí os dois se dão 1) um beijinho e 2) as mãos, para 3) ir depois ao cinema. Ou para o quarto do hotel, se quisermos beirar a audácia. O resto são reticências, ponto, parágrafo, virar a página e partir para um bate-boca ou tiroteio. O equivalente a deixar nosso casalzinho bem a sós no escuro às voltas com… bem, às voltas com suas voltas.

Isso, ao menos, em literatura. E segundo nosso bom e talentoso Martin Amis, escritor de meia-idade, meão, de lábios sobre o fino, cabelos macios e pele alva ansiosa por… Calma. Estou me deixando levar pelo assunto que ainda não cheguei a abordar nem de frente nem de costas para o arco adversário. Vamos tentar de novo abrindo outro parágrafo.

Em recente palestra para estudantes e admiradores, realizada no Centro de Estudos da Universidade de Manchester, dedicado à nova literatura, o festejado romancista e ensaísta Martin Amis começou sendo controvertido e citável, o que nunca deixa de ser louvável em qualquer escritor que se preze. Disse ele o seguinte diante da plateia que se reuniu para ouvi-lo numa das palestras com o tema “Literatura e sexo”:

“O sexo é indescritível e, no entanto, ele povoa o mundo”.

Algum dos presentes, se não disse, deve ao menos ter pensado, rimando, que “mesmo quando não povoa é uma boa”. Enquanto outros divagavam pensando besteira ou se concentravam nos conceitos emitidos pelo renomado escritor, que, então, prosseguiu: “Eu mantive durante anos a fio uma discussão com meu pai (Martin é filho de Kingsley Amis, romancista dos bons) sobre sexo e literatura. Ele dizia que há certas áreas em que a literatura não deve se aventurar. Para ele, não dava para se descrever o sexo.” Martin Amis cita então o pai por sua vez citando Henry James, outro que sabia das coisas e que, em determinada ocasião, escreveu que “narrar um sonho é perder um leitor”.

Outro alguém, sempre na plateia, assim como quem não quer nada, pode, ou não, ter raciocinado intimamente que “sexo não tem nada a ver com sonho, bolas!” Mas deixemos para lá esse mau humorado indivíduo e voltemos às ponderações de Amis fils. Que, a seguir, com talento, ofereceu uma pequena história do sexo na literatura, de Geoffrey Chaucer a Lolita, de Vladimir Nabokov.

A seguir, fez para o auditório a pergunta: “Agora que temos a total liberdade de escrever sobre sexo, cumprimos bem ou mal o trabalho descritivo?”

Não se sabe, ou eu não sei, a reação dos presentes. Não sei se articularam ou não seus mais recônditos pensamentos a respeito do delicado assunto. Eram estudantes. Jovens, fica subentendido. Por jovens podemos dizer (eu, ao menos, posso e digo) que boa parte dos jovens não pensa em outra coisa. Se escrevem a respeito em seus blogs ou nos blogs dos outros, se twittam ou deixam de twittar, não sei e não tenho vontade nenhuma de saber. Sei que uma revista literária importante, The Literary Review, costuma nomear e premiar todos os anos aquilo que batizou de Bad Sex, no sentido de fracativas (ridículas ou destemperadas) tentativas de descrever essa mais antiga das diversões ou passatempos.

Will Self, outro escritor presente aos trabalhos, convidado especial de Amis, e que já esteve em festa literária no Brasil, como todo mundo, insistiu em dar seu depoimento. Self, ele próprio, já indicado três vezes para abiscoitar (arrã) o prêmio Bad Sex, perguntou retoricamente a si mesmo (Self, ele próprio, a si mesmo, pegaram?): “Será que eu escrevi mal sobre o sexo ou meramente escrevi sobre o mau sexo?” Acrescentando que “o erótico é metafórico”. Prosseguindo para decretar que “a crise em nossa (lá dele) cultura é que nos permite escrever sem metáforas”.

Mais: “Dar nome às partes envolvidas no processo sexual é algo que corrompe muito… Eu acredito na manipulação dos desejos sexuais dos leitores, provocando-os metafórica e literalmente.” Will Self finalizou sua intervenção confessando, ou, para não passar julgamento, simplesmente dizendo que, quando escrevia sobre a homossexualidade, “começava a ter sonhos eróticos homossexuais” e passava a “alimentar desejos por homens”.

Ninguém na distinta plateia, evidentemente séria e pouco sexista, se importou ou comentou a respeito. No que Martin Amis aproveitou a lacuna para dizer que o processo de escrever, de uma forma geral, já é “horrendamente onanístico” e que “um romancista é alguém que se sente mais vivo quando sozinho”.

Terminada a palestra, os participantes partiram para suas respectivas solidões e outros processos, talvez mais gostosos e menos controvertidos.

 

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Wim Wenders - "Im Lauf der Zeit"

Verei hoje na Cinemateca de Jerusalém.

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